Fim das férias escolares: o ócio e o tempo de estudo



Últimos dias de férias escolares e as crianças já começam a ficar apreensivas para o reencontro com os amigos, mas também com a retomada do ritmo escolar, com cumprimento de horários e estudos. Essa apreensão, apesar de normal nesse período, acaba preocupando pais e cuidadores, especialmente ao que se refere à transição entre o tempo ocioso e a volta às aulas. Alguns se preocupam com a necessidade de uma nova adaptação. Outros, com as possíveis dificuldades a serem enfrentadas com a volta das responsabilidades.

Primeiro temos que compreender que os tempos se misturam, não há uma barreira que imponha limites entre o tempo de ócio e o tempo de estudo.

Nada de compreender que as férias tenham servido para recarregar baterias, pois nessa ideia há uma ideologia mecanicista bastante cruel que sussurra aos ouvidos da mente que homens sejam máquinas e que as escolas são subservientes aos meios de produção e por isso são em sua essência opressoras e desgastantes. Férias e aulas devem viver em harmonia, ambas a serviço da pessoa, ambas precisam coincidir na felicidade; e embora sejam tempos bem distintos, nas duas devem ocorrer muitas aprendizagens. 

Estudantes se divertindo no Stoquinho em período de férias escolares

As férias não devem ser consideradas apenas como um tempo de dar bobeira, embora ficar sem fazer nada tenha que fazer parte dela. As férias costumam ser um tempo que a criança ressignifica o que aprendeu na escola. Repare a alegria de uma delas, que ao ter acabado de apreender sobre o bioma dos pampas, no Ensino Fundamental, tenha viajado pela primeira vez ao sul do Brasil e norte do Uruguai. A criança se coloca no contexto social como um indivíduo interessado e mais maduro. Isso que é férias, isso é que é vida!

Penso que haja dois movimentos bastante básicos e fundamentais à mente, são eles: a ação e a reflexão. E ação e reflexão estão presentes nas férias e nas aulas.  Se nas férias não tiver havido tempo para a ação de aprender, de ressignificar, ler e aplicar a inteligência no desenvolvimento privilegiado do que mais gosta, bem como se não tiver tido tempo para uma completa reflexão sobre o semestre que passou, considerando as alegrias que viveu, as frustrações e dificuldades que encontrou, terá desperdiçado tempo preciso para ter se oportunizado ao crescimento.  

Após as férias, a rotina é retomada e o ritmo deve estar impregnado no modus vivendi do estudante, enquanto ser e os estímulos bem dosados, nunca excessivos e nunca ausentes.  A alternância equilibrada entre ação e reflexão deve permear todo o tempo da vida. Quando se fala em ritmo/estímulo também deve-se buscar equidade, pois se o ritmo for em descompasso ao estímulo proposto, certamente haverá desperdício de tempo ou de conteúdo.  Manter a mente ativa independe da atividade, e não existe o contrário disso para o ser humano, isto é a inatividade, pois quando a inatividade ocorrer para nós, deixamos de ser. 

Atividade artística realizada nas férias escolares

E, em se falando de rotina: uma palavra dura, que remete ao monótono, ao enfadonho, a mesmice. Em primeira análise, rotina lembra algo mecânico e bem chato. No entanto, precisamos compreender que rotina significa seguir uma rota e segue uma rota quem tem um norte, um objetivo para se alcançar, tem rotina quem compreende que seguir uma estrada não significa ver todo dia a mesma paisagem, pois o dia e a noite se alternam, bem como as estações do ano modificam o que se pode avistar ao longo do caminho. 

A rotina nada mais é que um atalho, um catalizador de sonhos, se eu quero chegar ao meu destino, a estrada, com segurança, pode me conduzir até ele, assim é a rotina. Eu posso fazer dela algo diferente, mas essa diferença estará dentro de mim, encarando que para eu poder criar novos caminhos, descobrir novas rotas preciso aprender com aquelas que já foram abertas. A rotina deve ser encarada como forma de alternância e não de repetição sem significado. Fazer com que os filhos prestem atenção nos detalhes, certamente contribuirá para encararem que a rotina não seja enfadonha, mas sim sutil, eu percebo que o jardim da escola pode estar diferente, que o cabelo dos amigos pode ter mudado, que o perfume da professora pode ser outro, ao mesmo tempo que eu reencontro a segurança de manter as amizades que conquistei, o conhecimento que tenho sobre as coisas e principalmente a conservação do sentimento de pertença.   

É importante que se reserve um tempo para a reorganização e quando se trata disso, compreendo que deva fazer parte da reorganização a própria reafirmação ou ruptura do que já estava sendo feito ou minimamente que seja uma revisão dos tempos e formas de como lidamos como o cotidiano dos tempos de aula. Os pais sejam primeiramente modelos inspiradores para seus filhos, mas não só modelos, mas sim integradores de um tempo onde não só os filhos, mas toda família, se reúne para uma atividade comum: planejar o segundo semestre, de forma que com tranquilidade e tempo suficientes possam fazer desde um simples arrumar de armários até mesmo uma reforma daquela planilha do cotidiano que habitualmente fica pregada na porta da geladeira. 

Arte realizada pelos estudantes durante as férias escolares

Por Prof. Roberto Belmonte Júnior – Pedagogo e Diretor Pedagógico do Ensino Fundamental no Colégio Stocco desde 2009 com formação em Administração Escolar, Filosofia, Filosofia da Educação, Didática e Sociologia da Educação.

A importância do brincar na primeira infância



Enquanto eu brinco… um dia só é pouco!

Quando observamos as nossas crianças percebemos o quanto elas gostam de brincar. Brincam com os brinquedos, transformam objetos em brinquedos, conseguem enxergar possibilidades em tudo para interagir com as pessoas e com o meio onde vivem.

Brincar é imprescindível para elas, pois é assim que fazem descobertas, percebem o mundo, aprendem e se desenvolvem socialmente, cognitivamente, emocionalmente e fisicamente.
Em 2018, entre os dias 20 e 28 de maio, acontecerá a Semana Mundial do Brincar cujo tema é “Vem brincar de Corpo e Alma”. Uma semana para destacar para a sociedade a importância do brincar na primeira infância.

Você já ouviu falar sobre a Semana Mundial do Brincar?

A ideia de criar um Dia Mundial do Brincar (28 de maio) foi na 8ª Conferência Internacional de Ludotecas em Tóquio, no ano 1999. De lá para cá se estendeu para a Semana Mundial do Brincar dada a relevância dessa atividade infantil. Em 2018, as brincadeiras voltadas ao corpo e a alma têm relação com o brincar livre, aquele escolhido pela criança, dela estar inteira no momento em que vivencia as brincadeiras.

É uma proposta da Aliança pela Infância, um movimento internacional para uma infância digna e saudável, para que a criança viva essa fase da vida em sua plenitude. De um modo geral, a atuação dos membros é voluntária. No Brasil estão espalhados 32 núcleos que com autonomia atuam e observam a Carta de Princípios a fim de elaborar conhecimentos e propostas relacionadas ao brincar. A Aliança procura inspirar ações que foquem o que denomina do ABCD da criança-aprender-brincar-comer e dormir para que esses direitos sejam garantidos e preservados.

Crianças se divertindo de corpo e alma no Stoquinho

O que fazer nessa semana?

Criança que brinca é criança que desenvolve suas potencialidades. É no contato com as pessoas, com os elementos da natureza e objetos, que ela pode ver como as coisas funcionam e observar as transformações dos elementos naturais, como, por exemplo, quando está a brincar num parque e mistura areia com água. O que ela vê? O que ela sente ao tocar nessa areia? São sensações e descobertas únicas que precisam ser asseguradas. É imprescindível que nos diversos segmentos sociais, principalmente na família e na escola, os momentos de brincar e se divertir de corpo e alma, estar inteira no instante em que brinca, sendo dona do espaço onde brinca e escolhendo o quanto brinca, sejam garantidos.

 

Crianças se divertindo e brincando de amarelinha

Será que é possível?

Essa resposta vai depender do quanto podemos ou queremos nos dedicar às crianças. No dia a dia, nós adultos, temos tanto a fazer… Nossas agendas estão sempre repletas de compromissos que às vezes não conseguimos tempo para dar atenção ao outro, mas é preciso repensar em nossas prioridades e organizarmos a rotina a fim de que os vínculos afetivos sejam fortalecidos. Nossas obrigações diárias são importantes, mas estar perto dos nossos filhos e demonstrar afeto, cuidado e atenção também. Por esse motivo, vamos nos propor a refletir se quando estamos com eles, de fato estamos com eles ou se estamos dividindo essa atenção. A razão disso é que enquanto são crianças e jovens e estão em pleno desenvolvimento, podemos deixar as marcas de quem deseja estar junto e vivenciar momentos inesquecíveis para que eles se desenvolvam de maneira saudável. Se tivermos tempo para eles, consequentemente aprenderão a dar tempo para o que é importante: as pessoas.

Estudantes brincam e desenvolvem suas potencialidades

Alguma ideia?

Minha sugestão é que brinque junto, pois brincando juntos todos ganham.
Ofereça espaços e oportunidades para o brincar. Faça uma viagem imaginária ao seu tempo de criança e pense o que mais lhe agradava: correr, saltar, dançar, esconder-se, brincar com água, pular corda, fazer comidinhas, escorregar, dançar, subir na árvore, estar na praia, no campo, nos parques, trocar figurinhas, preencher um álbum, ouvir histórias, brincar de faz de conta, brincadeiras de roda, escalar objetos, jogar, fazer pipas, bonecos com meias que não servem mais para o uso, dobraduras como um barquinho de papel, brincar na chuva…
Que tal um resgate das suas memórias? Que tal reinventar algumas brincadeiras, adaptando-as aos novos tempos e espaços? Que tal conhecer um parque aberto no bairro ou na cidade? E, se não tiver parques ou playgrounds, que tal juntar a turminha de amigos dos filhos e promover momentos em que possam entregar-se ao brincar de corpo e alma? Lembre que enquanto a criança brinca ela tem assegurado o seu direito de ter tempo para ser criança, para inventar, criar e soltar a imaginação. Por meio do corpo ela fala as mais diversas linguagens, expressa o que sente, o que percebe, como vê o mundo e o seu entorno, relaciona-se.
Então, dada a importância do brincar, sugiro que tente inspirar brincadeiras e em alguns instantes resgate a criança que está adormecida em seu interior.

As opções para brincar são inúmeras e as oportunidades precisam acontecer com os amigos e com você.

 

Professora Dra. Jozimeire Angélica Stocco de C. N. da Silva
Diretora-Geral das Unidades 1, 2 e 3, Pós-doutoranda em Educação pela PUC/SP, Doutora em Educação pela PUC/SP, Especialista em Educação Infantil.

Texto publicado em: http://chk.com.br/enquanto-eu-brinco-um-dia-so-e-pouco/