As descobertas e desafios envolvidos no desenvolvimento e distribuição da vacina para o SARS-COV2



E mais uma vez, na corrida pela cura da Covid-19, novas informações sobre o desenvolvimento da vacina trazem esperança para o fim dessa batalha. Os cuidados emocionais, os impactos físicos causados pelo isolamento social e a adaptação do Stocco ao ensino remoto na Educação Infantil e no Ensino Fundamental mostram nossa capacidade de nos reinventarmos no processo educacional durante o período da Pandemia. Além dos desafios psicológicos, a ciência também tem sido constantemente desafiada a buscar formas seguras de imunização, por isso, os professores de Ciências aqui do Stocco, Luis Alves, Nathália Binder e Vera Hacker, foram convidados para contar um pouco sobre como é realizado o desenvolvimento de uma vacina. 

A batalha das vacinas.

A vacina contra o SARS-COVID2 (vírus da Covid-19) é indiscutivelmente a maior busca científica do momento e o produto mais esperado pela população, que acredita no seu potencial para trazer nossa rotina ao normal.

Existem atualmente mais de 160 vacinas em desenvolvimento, dessas, apenas 29 foram testadas em humanos, e somente seis entraram na fase final de pesquisa, o que é crucial para entender se ela é realmente segura e tem o efeito esperado. Há três já previamente aprovadas, mas com limitado acesso (duas chinesas e uma russa). Uma destas 29 está sendo testada aqui em São Paulo em cooperação com várias Universidades públicas e com o Hospital das Clínicas da faculdade de Medicina da USP.

Um dos maiores feitos humanos no campo médico é a criação das vacinas, que permitiu preservar diversas vidas e mitigar doenças que costumam assolar o mundo, como a varíola e a poliomielite. Economicamente, os custos operacionais relacionados aos doentes diminuíram com o passar dos anos, tendo a perspectiva de ampliar ainda mais os benefícios com o desenvolvimento de pesquisas na área e com o engajamento da população. A vacina seria uma forma mais rápida de se atingir a imunidade de rebanho ou coletiva e encurtar a duração das ondas de uma pandemia como a que estamos vivendo. 

Imunidade coletiva ou imunidade de rebanho é um conceito usado para doenças que se propagam de uma pessoa para outra. Ele descreve uma cadeia de infecção que é prevenida, pois parte da população adquiriu imunidade à infecção, de modo que os indivíduos que não estão imunes são protegidos pelos que já manifestaram a doença. A circulação ativa do agente infeccioso é reduzida pela existência de mais pessoas com anticorpos específicos. Essa resistência ou imunidade à infecção é adquirida por quem se recuperou após o ciclo da doença ou que foram previamente vacinadas contra o agente biológico.

Como as vacinas funcionam?

Em meio a tantos benefícios, é difícil não se perguntar: “Como, afinal, as vacinas funcionam? O que garante a segurança e eficácia? Como está o desenvolvimento e a produção de vacinas contra a Covid-19? Quais os desafios a serem vencidos para que a vacina chegue para todos?”.

Antes de responder qualquer pergunta, é fundamental compreender como o nosso sistema imunológico funciona. Quando o organismo é invadido por um agente infeccioso, as células de defesa denominadas leucócitos iniciam um processo de reconhecimento, isolamento e destruição dos invasores. Para cada tipo de patógeno, o organismo produz uma resposta imunológica específica, um tipo de combinação chave e fechadura entre antígeno e anticorpo. 

Tipos de vacinas:

A vacina é uma resposta rápida no mecanismo de defesa do corpo. Existem vários tipos de vacinas que usam diferentes vetores, causando mais ou menos reações, mas todas têm o mesmo princípio: apresentam um antígeno que estimula a produção de células de defesa – leucócitos específicos. Dessa forma, criam-se células de memória que respondem prontamente a uma infecção real e permanecem em nosso organismo, mesmo sem termos nenhum contato com o agente infeccioso. 

 As vacinas virais podem ser divididas em três tipos segundo a técnica de produção e interação esperada entre o antígeno e nosso sistema imunológico. 

  1. As vacinas atenuadas são formuladas por agentes infecciosos ativos enfraquecidos por processos de infecções sucessivos em células in vitro, por isso não possuem a capacidade de produzir a doença (exemplos: febre amarela e poliomielite oral). Os casos clínicos em que o vírus volta para a forma comum e causa problema para as pessoas são raros. Esse tipo de vacina não é recomendada para gestantes e pessoas com imunossupressão.
  2. As vacinas inativadas contêm vírus que foram “desligados” por meios químicos ou físicos. As de subunidade são antígenos purificados. As duas técnicas não podem “imitar” doenças como as vacinas atenuadas. Elas agem enganando o sistema imunológico, uma vez que ele acredita que o agente infeccioso morto, ou parte dele, representa um perigo real e desencadeia o processo, formando os anticorpos necessários para nossa imunidade. Não apresentam contra indicações mais sérias, pois não existe risco dos fragmentos ou vírus inativados sofrerem qualquer modificação e nos atacarem.
  3. As vacinas obtidas por engenharia genética, como no caso das vacinas contra hepatite B e HPV, são produzidas com a informação genética de antígenos responsáveis ​​pela codificação de proteínas que representam antígenos relevantes para a proteção. Dessa maneira é possível utilizar outros vírus (adenovírus) ou microrganismos como fonte de incorporação de antígenos em preparações de vacinas, devido aos sistemas de expressão heterólogos para a produção de proteínas recombinantes.

Como atingir a imunização segura?

A Ciência e a Tecnologia têm um papel fundamental no desenvolvimento, produção e distribuição de uma vacina à população. Testes são realizados para garantir segurança, sem danos à saúde. A aprovação é realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que, por meio da resolução n.º 55, de 16 de dezembro de 2010, estabelece requisitos mínimos para o registro de uma vacina que envolvem fases de estudo e protocolos de segurança.

Fases de desenvolvimento:

  1. Fase laboratorial: fase inicial. Momento de definir a composição da vacina.
  2. Fase Pré-clínica: teste em animais para a comprovação dos dados obtidos em experimentações.
  3. Fase clínica: testagem feita em seres humanos. Essa fase é dividida em três:
  4. Fase I. Analisa a segurança da vacina em um grupo pequeno de voluntários.
  5. Fase II. Analisa mais detalhadamente a segurança da vacina.  Usada em um grupo de centenas de voluntários, em que é verificada uma resposta do sistema imunológico.
  6. Fase III. Analisa a segurança da vacina. Um grupo de milhares de pessoas pode ser testado. O processo garante se a vacina realmente protege contra uma doença. Nesta fase, a vacina é aplicada em metade dos participantes e a outra metade recebe uma substância placebo. 
  7. Após a aprovação da ANVISA, o laboratório é autorizado a produzir e distribuir a vacina. Mesmo assim ela continua sendo monitorada, em busca de eventuais reações adversas.

A revolução das vacinas.

Diferentes países, ao se depararem com a pandemia de Covid-19, iniciaram uma revolução histórica na fabricação de vacinas. Antes, demandava-se um longo período para realização, testes e produção em larga escala com duração média de 7 anos. A vacina para a caxumba foi desenvolvida mais rapidamente até então, e levou  4 anos para chegar ao mercado. No entanto, estamos diante da possibilidade de encontrar uma imunização eficaz e pronta em tempo recorde, já que modelos híbridos de estudos podem e devem ser feitos para acelerar os resultados, desde que com rigor científico e segurança.

A China e a Rússia parecem ter assumido a liderança nesta revolução. Em particular, o presidente russo Vladimir Putin anunciou, em agosto, que desenvolveu uma vacina, aprovou, registrou seu uso e planeja iniciar ainda em seu exército como teste. Os estudos Russos aconteceram em um modelo híbrido onde as fases II e III ocorreram paralelas e já poderiam ser testadas em larga escala. Isso é o que acontece em pandemias: o desenvolvimento tradicional de uma vacina que demoraria cerca de 7 anos para ocorrer, pode ser bem mais curto e seguro com fases paralelas. O artigo científico descrevendo o estudo russo saiu recentemente em um dos maiores jornais científicos de medicina (em 4 de setembro de 2020). 

 

Qual o papel do Brasil no processo de desenvolvimento da vacina?

O Brasil participa de três testes clínicos de vacina já no último estágio para aprovação, todos com parcerias internacionais seguindo os protocolos de segurança.

Infelizmente, nosso país se tornou um lugar favorável para os testes devido ao contínuo platô de casos observados e a curva de desenvolvimento da pandemia. Esse cenário possibilita um melhor estudo sobre a eficácia da vacina, um ambiente com grande circulação viral e transmissões locais, diferente de outros países na Europa, onde a curva apresenta um declínio acelerado.

Por outro lado, o Brasil destaca-se por apresentar uma infraestrutura moderna e de qualidade para gerar dados clínicos confiáveis que vão ajudar a compor os estudos e publicações científicas sobre a eficácia da vacina. Ademais, há pesquisadores brasileiros que são referência em infectologia e patologia, mundialmente conhecidos e que atraem cooperações internacionais. Assim, podemos contribuir de forma significativa com este capítulo da história mundial da saúde humana.

A pesquisa conduzida pelo Dr. Pedro Folegatti, orgulhosamente brasileiro, na Universidade de Oxford em parceria com Astrazeneca, é uma das mais promissoras e avançadas nessa busca pela vacina. A técnica utilizada para seu desenvolvimento foi feita a partir de um adenovírus modificado originário de chimpanzés. O adenovírus (proteína) carrega uma parte do material genético de Sars-CoV-2 chamado proteína S. Isso significa que os cientistas usam outro vírus, que realiza a entrega do material viral para nossas células sem nos causar prejuízos, funcionado como um “Cavalo de Tróia”. O vírus torna-se fraco após a modificação genética, ou seja, não é infeccioso e não pode se replicar no corpo humano. Os pesquisadores inseriram partes não infecciosas modificadas do coronavírus dentro dos adenovírus. Quando a vacina é injetada no corpo, o sistema imunológico promove uma resposta à proteína oculta no transportador, resultando na produção de anticorpos e outras células defensivas que podem proteger as pessoas da COVID-19. O Instituto FIOCRUZ será o responsável pela produção da vacina no Brasil caso seja aprovada na última fase de teste envolvendo mais de 50.000 pessoas ao redor do mundo, sendo 5.000 brasileiros profissionais da área da saúde.

Desenvolvimento mundo afora.

Outra grande promessa é a vacina da empresa chinesa Sinovac. Trata-se de um vírus que não consegue mais realizar suas atividades de interação com o material genético humano, assim, ela é supostamente mais segura, porque não causaria a doença. As desvantagens, segundo alguns virologistas, é o uso de apenas um pedaço do vírus ou um vírus morto, logo, não apresenta grande potencial para estimular o necessário de resposta imune. Dessa forma, são necessários adjuvantes, substâncias que precisam ser adicionadas à vacina para auxiliar na identificação do antígeno. Muitos cientistas acreditam que será preciso mais de uma dose da vacina para estabelecer uma imunização completa e segura. O estudo chinês concluiu que duas aplicações da vacina em um intervalo de 14 dias seria requerido.

Um promissor estudo coordenado pelo Dr. Gustavo Cabral, outro brasileiro, ainda em fase de teste pré-clínica, inova tecnologicamente na maneira de produzir a vacina. São utilizadas partículas em vez do material genético do próprio vírus, ou seja, são isolados pedaços do coronavírus responsáveis por entrar nas células do corpo humano. Estes são “pequenas flores”, chamadas “proteína spike”, são os classificados VLPs [da sigla em inglês Virus Like Particles], um emaranhado de proteínas. Conecta-se esses fragmentos com partículas sintéticas semelhantes a vírus, mas sem material genético, ou seja, corpos ocos, o que evita a multiplicação. Como as partículas produzidas em laboratório imitam o vírus, o sistema imunológico será estimulado, então, iniciar-se-á uma reação em cadeia no organismo. Esses fragmentos do coronavírus colocados nestas partículas provocam a defesa contra ele, com a formação dos anticorpos específicos. Dessa maneira,  as “florzinhas” (spikes) do vírus seriam desativadas, impedindo que ele entrasse nas células humanas. É como colocar uma estrutura vestida de coronavírus no nosso corpo, mas sem o seu perigoso material genético. Esta técnica já possui excelentes resultados no caso da hepatite B.

Além da vacina: o soro terapêutico.

Os principais veículos de mídia brasileira notificaram, no mês de agosto, uma pesquisa promissora que utiliza uma técnica antiga e muito comum na ciência. A produção de um soro terapêutico com ação anti-Covid, produzido em cavalos, com resultados apresentando até 50 vezes mais anticorpos do que o soro humano de pacientes recuperados da SARS-Cov-2. As notícias foram pautadas na apresentação brasileira de pesquisadores pertencentes ao Instituto Vital Brazil e a Universidade Federal do Rio de Janeiro no simpósio sobre Covid-19 na Academia Nacional de Medicina (ANM).

Os soros promovem uma imunização passiva que confere proteção pela transferência artificial de imunoglobulinas (anticorpos) por meio da administração parenteral, vias diferentes da gastrointestinal. Diferentemente das vacinas, os soros conferem imunidade imediata, porém temporária, que diminui quando os anticorpos transferidos são degradados. Soros heterólogos são constituídos de anticorpos obtidos de plasma animal, normalmente de cavalos, que foram expostos ao patógeno. Exemplos existentes e utilizados diariamente são: soro antiaracnídeo, anti-escorpiônico, antitetânico, anti-rábico etc.

O estudo inicial, realizado em maio de 2020, começou com a inoculação da proteína S recombinante do vírus no plasma de 5 cavalos, durante três semanas. Estes animais se apresentam assintomáticos ao longo de todo processo, não havendo prejuízos para seus organismos. O objetivo era obter um material chamado de gamaglobulina hiperimune mais elaborado que os conhecidos soros antitetânicos e antiofídicos. Após 70 dias, o plasma de quatro cavalos apresentaram anticorpos neutralizantes com potência de 20 a 100 vezes maior se comparados com o plasma de pessoas diagnosticadas com a doença. Cabe destacar que o uso desse soro produzido em corpos de outros animais podem gerar reações indesejadas e perigosas em humanos. Assim, este estudo, apesar de promissor, não parece ser a solução para a atual pandemia.

E quando a vacina estiver pronta?

Não são apenas as questões científicas que chamam a atenção da comunidade médica no desafio da obtenção da vacina, mas também os recursos materiais e logísticos na sua produção, envasamento e distribuição.

A conservação biológica das vacinas criou cenas inusitadas, como fazendas frigoríficas. Essas novas fazendas foram desenvolvidas por uma grande mobilização global estabelecida por governos, organizações internacionais e empresas farmacêuticas que liberaram bilhões de dólares para dar início à produção em massa de vacinas que ainda aguardam aprovação, além de impulsionar as capacidades da cadeia de abastecimento, garantindo que não sejam apanhadas de surpresa quando as vacinas receberem sinal verde. 

Muitos laboratórios, como a Pfizer e Astrazeneca, realizaram pedidos prévios destas fazendas, mesmo sem saber se a vacina em teste de fato funciona. Segundo especialistas, tal fato coloca em risco todo o esforço mundial, pois ampolas podem ser perdidas ao serem preenchidas com vacinas ainda não aprovadas com a possibilidade de descarte em pouco tempo por não cumprirem os protocolos necessários.

Em julho, as grandes farmacêuticas alertaram para uma possível carência de ampolas para armazenar futuras vacinas contra a Covid-19. A Schott, maior fabricante de ampolas para vacina, adotou a estratégia de recusa dos pedidos dessas fazendas para reservar estoques com o intuito de não comprometer recursos sem saber qual vacina estará de fato aprovada para o uso.

A lista de desafios científicos, técnicos, financeiros e logísticos é grande, mas é possível perceber que o empenho e a dedicação dos profissionais da área da saúde, pesquisadores e os mais diferentes setores da sociedade é ainda maior. A ciência, mais uma vez, vem provando seu valor e sua existência e manutenção de investimentos são absolutamente fundamentais para que possamos ter sucesso nessa jornada contra a Covid-19.

Ainda temos um longo caminho a percorrer para a chegada da vacina. Portanto, é necessário fazer nossa parte, nos protegendo e respeitando as regras de distanciamento social.

Referências

GRANDA, Alana. Soro anticovid produzido em Cavalos. Agência Brasil, 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-08/soros-produzidos-por-cavalos-tem-anticorpos-potentes-para-covid-19 acesso em: 30/08/2020.

 

GRANDA, Alana. Fabricantes de ampolas de vidro se preparam para vacina contra Covid-19. Agência Brasil. Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2020/06/12/fabricantes-de-ampolas-de-vidro-se-preparam-para-vacina-contra-covid-19.ghtml acesso em 02/09/2020.

MADEIRO, Carlos. – Covid: população de cidades com redução na infecção tem queda de anticorpos. UOL. Maceió, 31 de agosto de 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/08/31/cidades-que-seguraram-covid-no-pais-tem-queda-de-anticorpos-na-populacao.htm acesso em: 30/08/2020.

 

PANDEY, Ashutosh. – ‘Fazenda’ de freezers? Entenda a logística por trás da vacina da covid-19. Uol . 2020 Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/deutsche-welle/2020/08/31/fazenda-de-freezers-ent’enda-a-logistica-por-tras-da-vacina-da-covid-19.htm acesso em 01/09/2020.

 

Sociedade Brasileira e Imunologia. Nota Técnica da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) sobre o desenvolvimento e eficácia de vacinas para a COVID-19. São Paulo, 2020 Disponível em: https://docs.google.com/document/u/0/d/1gT-jqrsy-UjmIkjjugR6B5M14JU-43fFZecFc2U2lTo/mobilebasic acesso em: 02/09/2020.

TOLEDO, Karina..  Eficácia da Coronavac deve começar a ser avaliada em outubro, diz diretor do Instituto Butantan. Agência FAPESP. 10 de setembro de 2020. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/eficacia-da-coronavac-deve-comecar-a-ser.-avaliada-em-outubro-diz-diretor-do-instituto-butantan/34098/ acesso em: 10/09/2020.

 

Fim das férias escolares: o ócio e o tempo de estudo



Últimos dias de férias escolares e as crianças já começam a ficar apreensivas para o reencontro com os amigos, mas também com a retomada do ritmo escolar, com cumprimento de horários e estudos. Essa apreensão, apesar de normal nesse período, acaba preocupando pais e cuidadores, especialmente ao que se refere à transição entre o tempo ocioso e a volta às aulas. Alguns se preocupam com a necessidade de uma nova adaptação. Outros, com as possíveis dificuldades a serem enfrentadas com a volta das responsabilidades.

Primeiro temos que compreender que os tempos se misturam, não há uma barreira que imponha limites entre o tempo de ócio e o tempo de estudo.

Nada de compreender que as férias tenham servido para recarregar baterias, pois nessa ideia há uma ideologia mecanicista bastante cruel que sussurra aos ouvidos da mente que homens sejam máquinas e que as escolas são subservientes aos meios de produção e por isso são em sua essência opressoras e desgastantes. Férias e aulas devem viver em harmonia, ambas a serviço da pessoa, ambas precisam coincidir na felicidade; e embora sejam tempos bem distintos, nas duas devem ocorrer muitas aprendizagens. 

Estudantes se divertindo no Stoquinho em período de férias escolares

As férias não devem ser consideradas apenas como um tempo de dar bobeira, embora ficar sem fazer nada tenha que fazer parte dela. As férias costumam ser um tempo que a criança ressignifica o que aprendeu na escola. Repare a alegria de uma delas, que ao ter acabado de apreender sobre o bioma dos pampas, no Ensino Fundamental, tenha viajado pela primeira vez ao sul do Brasil e norte do Uruguai. A criança se coloca no contexto social como um indivíduo interessado e mais maduro. Isso que é férias, isso é que é vida!

Penso que haja dois movimentos bastante básicos e fundamentais à mente, são eles: a ação e a reflexão. E ação e reflexão estão presentes nas férias e nas aulas.  Se nas férias não tiver havido tempo para a ação de aprender, de ressignificar, ler e aplicar a inteligência no desenvolvimento privilegiado do que mais gosta, bem como se não tiver tido tempo para uma completa reflexão sobre o semestre que passou, considerando as alegrias que viveu, as frustrações e dificuldades que encontrou, terá desperdiçado tempo preciso para ter se oportunizado ao crescimento.  

Após as férias, a rotina é retomada e o ritmo deve estar impregnado no modus vivendi do estudante, enquanto ser e os estímulos bem dosados, nunca excessivos e nunca ausentes.  A alternância equilibrada entre ação e reflexão deve permear todo o tempo da vida. Quando se fala em ritmo/estímulo também deve-se buscar equidade, pois se o ritmo for em descompasso ao estímulo proposto, certamente haverá desperdício de tempo ou de conteúdo.  Manter a mente ativa independe da atividade, e não existe o contrário disso para o ser humano, isto é a inatividade, pois quando a inatividade ocorrer para nós, deixamos de ser. 

Atividade artística realizada nas férias escolares

E, em se falando de rotina: uma palavra dura, que remete ao monótono, ao enfadonho, a mesmice. Em primeira análise, rotina lembra algo mecânico e bem chato. No entanto, precisamos compreender que rotina significa seguir uma rota e segue uma rota quem tem um norte, um objetivo para se alcançar, tem rotina quem compreende que seguir uma estrada não significa ver todo dia a mesma paisagem, pois o dia e a noite se alternam, bem como as estações do ano modificam o que se pode avistar ao longo do caminho. 

A rotina nada mais é que um atalho, um catalizador de sonhos, se eu quero chegar ao meu destino, a estrada, com segurança, pode me conduzir até ele, assim é a rotina. Eu posso fazer dela algo diferente, mas essa diferença estará dentro de mim, encarando que para eu poder criar novos caminhos, descobrir novas rotas preciso aprender com aquelas que já foram abertas. A rotina deve ser encarada como forma de alternância e não de repetição sem significado. Fazer com que os filhos prestem atenção nos detalhes, certamente contribuirá para encararem que a rotina não seja enfadonha, mas sim sutil, eu percebo que o jardim da escola pode estar diferente, que o cabelo dos amigos pode ter mudado, que o perfume da professora pode ser outro, ao mesmo tempo que eu reencontro a segurança de manter as amizades que conquistei, o conhecimento que tenho sobre as coisas e principalmente a conservação do sentimento de pertença.   

É importante que se reserve um tempo para a reorganização e quando se trata disso, compreendo que deva fazer parte da reorganização a própria reafirmação ou ruptura do que já estava sendo feito ou minimamente que seja uma revisão dos tempos e formas de como lidamos como o cotidiano dos tempos de aula. Os pais sejam primeiramente modelos inspiradores para seus filhos, mas não só modelos, mas sim integradores de um tempo onde não só os filhos, mas toda família, se reúne para uma atividade comum: planejar o segundo semestre, de forma que com tranquilidade e tempo suficientes possam fazer desde um simples arrumar de armários até mesmo uma reforma daquela planilha do cotidiano que habitualmente fica pregada na porta da geladeira. 

Arte realizada pelos estudantes durante as férias escolares

Por Prof. Roberto Belmonte Júnior – Pedagogo e Diretor Pedagógico do Ensino Fundamental no Colégio Stocco desde 2009 com formação em Administração Escolar, Filosofia, Filosofia da Educação, Didática e Sociologia da Educação.

A importância do brincar na primeira infância



Enquanto eu brinco… um dia só é pouco!

Quando observamos as nossas crianças percebemos o quanto elas gostam de brincar. Brincam com os brinquedos, transformam objetos em brinquedos, conseguem enxergar possibilidades em tudo para interagir com as pessoas e com o meio onde vivem.

Brincar é imprescindível para elas, pois é assim que fazem descobertas, percebem o mundo, aprendem e se desenvolvem socialmente, cognitivamente, emocionalmente e fisicamente.
Em 2018, entre os dias 20 e 28 de maio, acontecerá a Semana Mundial do Brincar cujo tema é “Vem brincar de Corpo e Alma”. Uma semana para destacar para a sociedade a importância do brincar na primeira infância.

Você já ouviu falar sobre a Semana Mundial do Brincar?

A ideia de criar um Dia Mundial do Brincar (28 de maio) foi na 8ª Conferência Internacional de Ludotecas em Tóquio, no ano 1999. De lá para cá se estendeu para a Semana Mundial do Brincar dada a relevância dessa atividade infantil. Em 2018, as brincadeiras voltadas ao corpo e a alma têm relação com o brincar livre, aquele escolhido pela criança, dela estar inteira no momento em que vivencia as brincadeiras.

É uma proposta da Aliança pela Infância, um movimento internacional para uma infância digna e saudável, para que a criança viva essa fase da vida em sua plenitude. De um modo geral, a atuação dos membros é voluntária. No Brasil estão espalhados 32 núcleos que com autonomia atuam e observam a Carta de Princípios a fim de elaborar conhecimentos e propostas relacionadas ao brincar. A Aliança procura inspirar ações que foquem o que denomina do ABCD da criança-aprender-brincar-comer e dormir para que esses direitos sejam garantidos e preservados.

Crianças se divertindo de corpo e alma no Stoquinho

O que fazer nessa semana?

Criança que brinca é criança que desenvolve suas potencialidades. É no contato com as pessoas, com os elementos da natureza e objetos, que ela pode ver como as coisas funcionam e observar as transformações dos elementos naturais, como, por exemplo, quando está a brincar num parque e mistura areia com água. O que ela vê? O que ela sente ao tocar nessa areia? São sensações e descobertas únicas que precisam ser asseguradas. É imprescindível que nos diversos segmentos sociais, principalmente na família e na escola, os momentos de brincar e se divertir de corpo e alma, estar inteira no instante em que brinca, sendo dona do espaço onde brinca e escolhendo o quanto brinca, sejam garantidos.

 

Crianças se divertindo e brincando de amarelinha

Será que é possível?

Essa resposta vai depender do quanto podemos ou queremos nos dedicar às crianças. No dia a dia, nós adultos, temos tanto a fazer… Nossas agendas estão sempre repletas de compromissos que às vezes não conseguimos tempo para dar atenção ao outro, mas é preciso repensar em nossas prioridades e organizarmos a rotina a fim de que os vínculos afetivos sejam fortalecidos. Nossas obrigações diárias são importantes, mas estar perto dos nossos filhos e demonstrar afeto, cuidado e atenção também. Por esse motivo, vamos nos propor a refletir se quando estamos com eles, de fato estamos com eles ou se estamos dividindo essa atenção. A razão disso é que enquanto são crianças e jovens e estão em pleno desenvolvimento, podemos deixar as marcas de quem deseja estar junto e vivenciar momentos inesquecíveis para que eles se desenvolvam de maneira saudável. Se tivermos tempo para eles, consequentemente aprenderão a dar tempo para o que é importante: as pessoas.

Estudantes brincam e desenvolvem suas potencialidades

Alguma ideia?

Minha sugestão é que brinque junto, pois brincando juntos todos ganham.
Ofereça espaços e oportunidades para o brincar. Faça uma viagem imaginária ao seu tempo de criança e pense o que mais lhe agradava: correr, saltar, dançar, esconder-se, brincar com água, pular corda, fazer comidinhas, escorregar, dançar, subir na árvore, estar na praia, no campo, nos parques, trocar figurinhas, preencher um álbum, ouvir histórias, brincar de faz de conta, brincadeiras de roda, escalar objetos, jogar, fazer pipas, bonecos com meias que não servem mais para o uso, dobraduras como um barquinho de papel, brincar na chuva…
Que tal um resgate das suas memórias? Que tal reinventar algumas brincadeiras, adaptando-as aos novos tempos e espaços? Que tal conhecer um parque aberto no bairro ou na cidade? E, se não tiver parques ou playgrounds, que tal juntar a turminha de amigos dos filhos e promover momentos em que possam entregar-se ao brincar de corpo e alma? Lembre que enquanto a criança brinca ela tem assegurado o seu direito de ter tempo para ser criança, para inventar, criar e soltar a imaginação. Por meio do corpo ela fala as mais diversas linguagens, expressa o que sente, o que percebe, como vê o mundo e o seu entorno, relaciona-se.
Então, dada a importância do brincar, sugiro que tente inspirar brincadeiras e em alguns instantes resgate a criança que está adormecida em seu interior.

As opções para brincar são inúmeras e as oportunidades precisam acontecer com os amigos e com você.

 

Professora Dra. Jozimeire Angélica Stocco de C. N. da Silva
Diretora-Geral das Unidades 1, 2 e 3, Pós-doutoranda em Educação pela PUC/SP, Doutora em Educação pela PUC/SP, Especialista em Educação Infantil.

Texto publicado em: http://chk.com.br/enquanto-eu-brinco-um-dia-so-e-pouco/